O Olho - um jornal patriota e brincalhão


       NARRATIVA

(ainda inspirado nos escritos da Loba)

 

No domingo passado me dispus a narrar pelo menos um milésimo do que veria, ouviria, sentiria em minha caminhada matinal dominical, que não é só caminhada, mas ida simultânea ao supermercado e feira livre, a cerca de dois quilômetros de onde moro; e saí às 7:20.

Logo que saio do portão na Pinto Gomes entro na Doutor Teodomiro, que tem só 50 metros de extensão, e encontro com um garoto vizinho trazendo seu saco de pão para o café da manhã, que me chamou de Vovô Noel (estou deixando a barba crescer para servir de protetor solar, visto que os produtos industrializados me causam alergia respiratória). Em seguida um gato malhado de branco e preto, com pelagem bem cuidada, atravessa a rua calmamente como que em caminhada meditativa; para não cortar seu barato passo por trás dele, atravesso a Cataguazes, entro na Nascimento Gurgel, onde na primeira esquina uma mulher com seu saco de pão para o café da manhã, já de longe chama por Evan, seu cachorro, para que ele saísse pelo portão aberto e viesse ao seu encontro (esse Evan me lembrou Evo Morales). Em outras caminhadas eu a vi dando ordens ao seu fiel amigo. Mais na frente um homem varria sua calçada, e outro um pedaço desta mesma rua. Como eu não faço quase nada pra ninguém e por isso não posso reclamar de quem não faz, pelo menos posso elogiar os que fazem, e é isso que quero dizer ao expor o que vi ali. Ou será que eles estão apenas se sentindo pressionados pelo Dia Internacional da Mulher e só por isso resolveram dar uma mãozinha? Seja como for fica registrado. Mais adiante uma rolinha bicava algo sobre um monte de terra, enquanto outras juntamente com pardais faziam o mesmo na outra calçada. Aquilo era o café da manhã delas, penso eu. Outro homem varrendo um pedaço da rua. Pelo visto acaba de nascer na Nascimento Gurgel um novo homem.

No largo da Fontinha atravesso a Henrique de Melo, sigo pela Estrada da Fontinha, faço uma manobra na segunda esquina à direita, atravesso a Sapopemba, entro na Caracas, onde lá pela sua metade, no meio fio esquerdo, uma fogueira queimava lixo. Passei pela calçada direita, mas outra vez, não sei porque, me lembrei de Hugo Chaves; será que fogueira tem parentesco com Chaves, ou foi só uma associação com o nome Caracas?

Daí em diante praticamente não prestei mais atenção a nada, a não ser à grande quantidade de cachorros soltos nas ruas, além de um bom número nas casas, bem mais do que se possa imaginar. E que cerca de 40% das pessoas que encontrava portavam um saco de pão para o café da manhã. Parece que só eu tomo café antes das seis. Não prestava atenção, mas ouvia cantos de pássaros, latidos de cachorros, vozes humanas, ruídos de carros...

Depois do supermercado, feira, de onde sai às 8:50, sem disposição de prestar atenção em coisa alguma, exceto naquilo que me incomodasse. Encontrei logo na primeira rua um garoto com seus 12 anos com um carrinho atravessado na calçada enquanto esperava pela mãe que entrou numa loja. Impedido pelo carrinho de passar pela calçada, parei e fiquei olhando a cara do moleque, certo de que com aquela idade ele já teria condições de perceber o que eu queria, mesmo sem lhe dizer uma só palavra, já que vinha com uma bolsa de supermercado em cada mão e parei por causa dele, mas ele não se deu por achado; calma e cautelosamente, como quem pisa no desconhecido, afastei o carrinho com o pé e passei calado, como calado ele permaneceu.

Já no largo da Fontinha iniciei a travessia da Henrique de Melo sem que viesse carro da esquerda ou da direita, mas, saído não sei de onde, como verdadeiro dono do mundo, passou pela minha frente um, sem que seu condutor tivesse a menor preocupação em me deixar exposto ao perigo de estar no meio da rua, e logo em seguida parou sobre a calçada por onde eu passaria na Nascimento Gurgel, e dele desceu aquele que mais parecia o Senhor dos Senhores, para caminhar vagarosamente até à esquina, como quem não tem nada para fazer. O fato de não ter diminuído a marcha para que eu acabasse de atravessar a rua não significa nada para esse dono do mundo.

Segui meu caminho pensando no quão difícil nos é sentir as necessidades dos outros. Cheguei em casa às 9:30, fiz o meu costumeiro suco vitaminado, energizado, tonificado, bebi e vim escrever essa narrativa que não representa nem um bilionésimo do que vi, ouvi, senti; a cada olhar descortinava-se um mundo sem fim a ser descrito, como a frondosa mangueira que vi ocupando quase todo um terreno, e que exibia uma ferida lateral (uma fogueira lhe queimou cerca de dez por cento das folhas e ramos), naturalmente acesa por um desses seres que se dizem racionais (um desses que dirigem carros de forma irresponsável, coloca-os sobre as calçadas, andam na contramão, avançam sinais, excedem a velocidade permitida, certos de que nada de errado estão fazendo), e eu sem palavras pra retratar pra vocês tudo que vi, ouvi, senti.

ACORDA, MULHER,

CAI NA REAL!

 

Laura tinha pés grandes, boca grande, e bunda pequena. E achava que por isso não arranjava namorado. Mas perguntava:

- Desde quando bunda grande põe mesa?

 - A resposta é desde nunca!

No entanto, as mulheres esquecem que “beleza é fundamental”, e não é beleza cosmética não, é beleza natural mesmo! Elas não querem ser admiradas pelo seu brilho mental, intelectual, manufatureiro, pau pra toda obra, fôlego de sete gatos, formiga e cigarra ao mesmo tempo... Querem ser paparicadas face ao seu perfil físico, sua silhueta, em fim, sua beleza.

Que beleza? Pensam que beleza é como erva daninha, que dá em qualquer lugar? Esse dom pertence a poucas. E sem beleza fica impossível aquela admiração que deslumbra e embriaga; só a beleza natural provoca essa loucura nos homens.

Pensando melhor devo dizer

Que me perdoe o poetinha

Mas beleza não é fundamental

Fundamental é ser cabeça feita

Não ser maria vai com as outras

Saber em que galho vai pousar

E não seguir como doida potra.

A beleza é como a aurora

Que agora é muito linda

Mas em pouco já se foi

Bateu asas foi embora!

 

-0-0-

Sei que sozinho não consigo convencer a humanidade louca de que o automóvel é um instrumento assassino sob mil e um aspectos, e que o trem (de boa qualidade) é um excelente meio de transporte. Mas, como o beija-flor do Betinho, faço a minha parte. E você, faz o que pra melhorar a qualidade de vida no planeta Terra?

                                      -0-0-

Frase do mês: “A natureza é o único livro que oferece um conteúdo valioso em todas as suas folhas”. Goethe.

                                      -0-0-

Frase de sempre: “As árvores são poemas que a Terra escreve para o Céu”. Kahlil Gibran.

                                      -0-0-

Frase da vez: “Quando se extingue uma tribo desaparece um patrimônio histórico, cultural e ambiental da humanidade”. Washington Novais.

 



Escrito por Jota Effe Esse às 03h42
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